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Educação: "A gente tem a percepção de que a escola privada é melhor do que a pública, mas não é"

Há 10 anos, o Brasil ganhava um dos poucos movimentos da sociedade civil em que o foco é o desenvolvimento da educação: o Todos Pela Educação (TPE). A iniciativa tornou-se referência de comprometimento com o tema e atua como uma espécie de sentinela, apontando deficiências e monitorando o andamento de políticas públicas e propostas que pretendem tirar o ensino do Brasil de sua defasagem histórica em relação ao que se espera. 


À frente dessa mobilização em prol da educação brasileira está a paulistana Priscila Cruz, 41 anos, fundadora e presidente-executiva do TPE. Graduada em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), ela fez mestrado em Administração Pública na Harvard Kennedy School, nos Estados Unidos, e desde muito cedo se interessou pelo terceiro setor. Foi coordenadora do Ano do Voluntariado no Brasil, projeto que recebeu destaque das Nações Unidas em 2001 e ajudou a fundar, no ano seguinte, o Instituto Faça Parte, que promove entre os jovens o voluntariado educativo, reconhecendo e divulgando experiências escolares exemplares.

Em entrevista por telefone a Zero Hora — concedida na semana passada entre um compromisso e outro de uma rotina agitada por palestras, produção de artigos e livros sobre Educação — Priscila comentou indicadores da qualidade de ensino, os avanços e os desafios da área e ressaltou o papel fundamental e intransferível da população na melhoria da escola brasileira.

Nessa luta, a presidente-executiva do TPE atuou de maneira intensa junto ao Congresso Nacional durante a tramitação do Plano Nacional de Educação (PNE), levando temas defendidos pelo movimento para o debate, pautando metas e estratégias importantes, como a aprovação de uma Base Nacional Comum, e a alfabetização e o aprendizado adequados na idade certa. Priscila também propôs a reformulação do Ensino Médio, cujo Projeto de Lei está em tramitação na Câmara dos Deputados e no qual ela aposta suas fichas para reverter o quadro de deficiência no aprendizado e de desmotivação dos alunos neste nível escolar. Confira os principais trechos da entrevista.

O Todos Pela Educação completa 10 anos neste ano. Nesse período, a educação no Brasil melhorou?

Temos uma situação mista. O Brasil avançou — afinal, são 10 anos, deu tempo para colher resultados. Em alguns indicadores, tivemos avanços, por exemplo, no último dado que divulgamos, sobre a conclusão do Ensino Médio (EM) por jovens de 19 anos. Avançamos 15%. Precisamos celebrar isso porque é resultado da política pública, do esforço de todos e da revalorização da educação pela sociedade. Em grande parte, o aluno deixa a escola porque não acredita na educação como algo importante na sua vida. Nesses últimos 10 anos, acho que houve um resgate da educação como principal estratégia de vida das pessoas. Por outro lado, há resultados que deixam muito a desejar. Pegando o mesmo recorte do EM: temos aumento da conclusão na idade certa, no entanto, a aprendizagem é muito baixa. Esse jovem vai até o final, tem o diploma, mas é um diploma que tem pouquíssimo lastro. Somente 9% dos jovens aprenderam o mínimo esperado em matemática. Temos dois mundos.

E o que falta para conseguir a qualidade desejada?

Primeiro, deveria estar no topo da nossa agenda educacional a formação de professores. O fator mais determinante na aprendizagem é o professor. É preciso ter uma excelente formação de futuros professores e dos que estão em exercício. Aqueles jovens que escolheram a carreira docente e estão fazendo licenciatura ou Pedagogia precisariam receber das universidades uma formação que desse conta do desafio que terão pela frente. Não é simples garantir aprendizagem de alunos muito heterogêneos numa sala de aula com 20, 25 alunos. Isso deveria ser a linha estratégica do país. E ter persistência nesse caminho, atrelando outras políticas, como a Base Nacional Comum (BNC), em apoio à prática docente em sala de aula.

Os professores são mal remunerados, e isso também afasta as pessoas da profissão.

Concordo que isso precisa melhorar, mas os jovens que estão na Pedagogia precisam ter uma formação. Seja qual for o repertório deles, a faculdade precisa elevá-lo e até cobrir lacunas que esse futuro professor teve na sua formação. Nossa formação de professores é muito desatrelada da sala de aula. Claro que teoria é importante, mas ela tem de estar junto à prática. É comum ouvir formandos dizendo que, quando entraram pela primeira vez na sala de aula, não tinham ideia do que fazer. Ao longo da carreira, quantos alunos passarão por esses professores?

O Todos Pela Educação determinou cinco metas para a educação brasileira até 2022. Qual delas é mais possível de ser atingida e qual não conseguiremos cumprir?

Chegaremos perto de atingir a meta 1. Isso foi algo que, inclusive, o TPE ajudou a aprovar como obrigatoriedade. Agora, ela é constitucional. A meta mais difícil é a meta 3, da aprendizagem, especialmente no Ensino Médio. No Ensino Fundamental 2, começa o declínio de rendimento. A gente percebe isso em vários indicadores: no Fundamental 2 começa uma piora nos resultados, culminando no Médio. Os alunos ficam na escola quatro horas, há 13 disciplinas obrigatórias e ainda é preciso cobrir coisas do Fundamental 2 e até do Fundamental 1 que o aluno não aprendeu. Esse aluno também está pressionado pelo Enem, e os professores passam o conteúdo correndo porque têm de terminar a matéria para o Enem. Todo mundo faz exatamente a mesma coisa. Estamos tão acostumado com esse modelo que não criticamos. Em outros países, o Ensino Médio é diversificado de acordo com o projeto de vida do aluno. Há modelos em que o aluno tem uma parte obrigatória e outra optativa. Outros são por áreas. No Brasil, é a mesma coisa para todo mundo. Então, não se consegue avançar, porque não se tem o interesse do aluno. Quantas vezes você já ouviu alunos falando "por que tenho de aprender isso?". A gente já vivia isso na escola. A escola talvez tenha sido a instituição que menos mudou nos últimos anos. Mas a vida mudou bastante.

Há alguma meta sobre educação digital? Não falo em ter tecnologia, mas em saber usá-la com consciência, senso crítico.

A gente não tem nenhuma meta no Brasil sobre isso. No Plano Nacional de Educação (PNE) tem de forma muito tímida. Uma das maiores críticas que faço ao PNE é a timidez do plano em relação à educação do século 21. O plano só olha para o retrovisor, para aquilo que a gente já tinha de ter feito e precisa fazer agora. O modelo está equivocado, precisa mudar de uma forma mais ampla, porque não é uma questão de colocar lousa digital. O PNE é um plano para a gente, nos próximos anos, cobrir o buraco de décadas de descaso com a educação. Ele é o basicão, o feijão com arroz que a gente precisa garantir para, pelo menos, chegar a um patamar que os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estão. Não é um plano para o futuro. A Base Nacional Comum também poderia apontar as aprendizagens relevantes para o jovem atual.

A Base Nacional Comum foi bastante criticada quanto ao conteúdo. No que você acha que essas críticas são válidas?

A BNC é criticada e com razão. Esse documento inicial que o Ministério da Educação (MEC) colocou em discussão é muito ruim. A ideia do MEC foi apresentar um documento possível de ser feito agora, colocar para consulta, ouvir as pessoas e melhorá-lo. Até entendo esse argumento, mas discordo. Da forma como foi feito, já colocou um patamar de qualidade muito baixo. É um documento absolutamente inchado e, ao mesmo tempo, com um monte de buracos. Para se ter uma ideia, para o aluno da educação básica cumprir a BNC ele teria de ficar três vezes mais o tempo que ele fica hoje na escola. A ideia é que a BNC seja 60% ou, no máximo, 70% do currículo da escola. Mas ela é três vezes o atual currículo e há coisas que deveriam estar na base e não estão.

Nos conteúdos de história, a polêmica foi maior, por conta da possível retirada de matérias ligadas à Grécia, para a inclusão de temas sobre África e povos locais.

Essa "história da história" foi interessante porque chamou a atenção da população para a BNC. É uma discussão de equilíbrio. A gente vai continuar com o mesmo ensino de história, que ignora tanto Ásia quanto África e os povos nativos? Não é errado aprender sobre Grécia, Roma, isso tem de continuar, mas não pode ser só isso. Temos de ver qual a dose. Eu não aprendi nada da história da China. Quando eu estava na escola, não era um país tão relevante, mas hoje é. Não faz sentido não se aprender a história de outras regiões.

Muitos desses indicadores são observados para se fazer rankings, mas educadores questionam essa abordagem. Sob que aspectos ranquear indicadores de educação é negativo?

Discordo dos especialistas que dizem que não se consegue comparar um ano com o outro por esses índices. Essas avaliações, como Enem e Prova Brasil, são baseadas na Teoria de Resposta ao Item (TRI), que pretende justamente garantir a comparabilidade no tempo. As provas têm o mesmo grau de dificuldade em todos os anos, mas as perguntas são diferentes. Quando você tem uma rede com pontuação 700 em língua portuguesa e depois ela faz 750 pontos, podemos afirmar que ela teve um avanço de 50 pontos em um ano. O que você não pode comparar — e nesse aspecto o ranking é ruim — são contextos diferentes. Você pode ter uma escola com a qualidade melhor que tem o resultado pior. Por que não ranquear? Porque você está comparando coisas não comparáveis.

Então escolher uma escola pelos rankings não é adequado?

Qual o fator mais associado ao desempenho dos alunos nessas avaliações de larga escala? É o nível socioeconômico dos alunos. Quanto maior o nível socioeconômico do aluno, maior será o resultado da escola. Quando você faz um ranking, você está ranqueando o nível socioeconômico não a qualidade da escola. Você pode ter uma escola péssima, mas que recebe alunos com nível socioeconômico muito alto, que aprendem pra caramba fora da escola. Essa instituição terá um resultado muitas vezes melhor do que uma escola pública excelente, mas que atende uma população mais pobre.

O que deve balizar a escolha?

O projeto. O efeito dos pares é importante. Um aluno de renda alta, que tem um monte de oportunidade de aprender fora da escola, se frequentar uma escola de baixa qualidade, ele terá seu direito à educação, de certa forma, prejudicado. Não vamos ser ingênuos de pensar "tanto faz a escola, o que importa é o aspecto socioeconômico". Não, não é nem o extremo de um, nem o extremo de outro. O que as famílias devem levar em conta? Primeiro, a posição da escola no ranking é mais da metade ditada pelo nível socioeconômico médio das famílias que estão ali. Então, não se iluda. Segundo, a família tem de ver qual o projeto político-pedagógico da escola, que tipo de educação que ela quer e os valores. Para mim, o mais importante são os valores. Eu ficaria menos preocupada com os conteúdos, porque, se o aluno quiser aprender, ele vai aprender.

A Finlândia é exemplo de educação eficiente, mas a realidade brasileira é muito distinta do cenário daquele país, inclusive no número de alunos. O que poderíamos aplicar aqui?

Há alguns anos, fui consultora de um projeto do Canal Futura para fazer uma série de seis documentários sobre a educação de alguns países. Seriam os cinco do topo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) na época e o Brasil. Essa era a pergunta que a gente se fazia: o que esses países poderiam nos ensinar? O que verificamos é que essas políticas de educação variam demais de um país para o outros. O que funciona na Finlândia, funciona na Finlândia, o que funciona no Canadá, funciona no Canadá. O que há em comum entre os países que estão no topo? A valorização, de fato, da educação pela sociedade. A população inteira desses países cobra um resultado grande, não aceita pouca coisa. A Finlândia saiu do primeiro lugar do Pisa para o segundo, e teve manifestação nas ruas. Óbvio que a política pública não está isenta. Mas ela é reflexo do quanto nós cobramos dos gestores públicos.

O filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, que esteve em Porto Alegre em 2015, diz que a elite do Brasil abandonou a escola pública e optou por um sistema segregador.

No Brasil, as pessoas falam muito de educação de um modo genérico, mas a escola pública não é objeto de cuidado da população. A classe média, a elite que bate na porta do gestor, não está pressionando por educação. Claro que isso está mudando, o próprio Todos Pela Educação é um reflexo disso. Em outros países, há uma miríade de organizações cobrando e trabalhando junto. Só se consegue melhorar a educação quando todo o país quiser que ela melhore.

A qualidade da escola privada está além da escola pública?

A gente tem a percepção de que a escola privada é melhor do que a pública, mas não é. Como disse, metade do rendimento de um aluno é o que ele traz de casa, é extraescolar. A outra metade é o que aprendeu na escola. A primeira metade nos alunos de elite é muito maior. Aí, mesmo que a escola pública adicione mais do que a privada, o resultado final da particular ainda será melhor. É claro que existem escolas privadas maravilhosas, como existem escolas públicas maravilhosas. É engraçado que, em geral, as escolas melhores são aquelas que atendem alunos com renda maior, aí, essa população paga um dinheirão para o filho estudar ali e, na verdade, o resultado é o que a própria família está levando para a escola. Na escola pública não é assim, porque ela tem de lidar com um espectro maior de repertório familiar, renda etc.

Você é a favor das cotas?

Sou a favor como estratégia de curto prazo para quebrar a tradição da exclusão. De certa forma, a educação é muito impactada pela expectativa de cada um. Se eu tenho expectativa de entrar no Ensino Superior, eu encaro a educação básica de um jeito. Se eu acho que não mereço estar no Ensino Superior, vou ter outra atitude. Não só as cotas, mas Prouni e Fies foram políticas importantes para criar um imaginário convocante em uma população que achava que educação não era um direito dela. Agora, a inclusão tem de ser só pelas cotas? Não, ela tem de ser feita pela qualidade de ensino para todos. Mas isso é difícil num país com uma história de naturalizar que há pessoas que têm menos oportunidades do que outras. Vamos observar a desigualdade regional no Brasil: veja resultados de alunos do Maranhão, de Alagoas. Seria para qualquer brasileiro olhar esses números e entender que, atrás deles, há crianças que não vão superar jamais a sua situação de exclusão e pobreza. Era para a gente se comover. O mais grave é o quanto a gente tolera isso.

Fonte: ZH

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